Se alguma vez sentiste que o alemão é um "mosaico" de regras confusas e peculiaridades regionais, tens razão — é mesmo. Mas houve uma época em que era ainda mais caótico. Antes dos anos 1500, não existia "alemão padrão". Uma pessoa de Hamburgo e uma pessoa de Munique mal conseguiam entender-se.
Tudo isso mudou numa sala fria no Castelo de Wartburg (que apresentámos no nosso Guia dos Castelos). Em 1522, um monge proscrito chamado Martinho Lutero sentou-se para traduzir a Bíblia e, ao fazê-lo, acabou por inventar, sem querer, a língua que estás a estudar hoje.
1. A Torre de Babel: a Alemanha antes de Lutero
Antes da Reforma, a língua "erudita" era o latim. Se eras uma pessoa comum que só falava um dialeto local, a Bíblia era um livro fechado. Como não havia um governo central alemão nem uma capital, não existia uma versão "oficial" da língua.
2. A estratégia: "dem Volk aufs Maul schauen"
Lutero não queria traduzir a Bíblia para um alemão rígido e académico. Queria que soasse à língua falada nos mercados e nas casas.
Ele disse, de forma famosa, que queria "dem Volk aufs Maul schauen" (literalmente: olhar para a boca do povo). Viajou por diferentes regiões, ouvindo como as mães falavam com os filhos e como os comerciantes discutiam preços. Depois escolheu um dialeto intermédio — uma mistura do alto alemão oriental com o alemão central oriental — como base da sua tradução.
3. O poder da imprensa
Lutero teve sorte. A sua tradução surgiu ao mesmo tempo que a imprensa de Johannes Gutenberg.
O resultado: pela primeira vez, milhares de pessoas em regiões diferentes estavam a ler exatamente as mesmas palavras.
A unidade: como a Bíblia era o livro mais lido da história, o vocabulário e a gramática específicos que Lutero escolheu tornaram-se o "padrão de ouro". Foi assim que nasceu o Neuhochdeutsch (novo alto alemão).
4. Inovações linguísticas: as "novas" palavras de Lutero
Lutero não se limitou a traduzir palavras; inventou-as quando o alemão da época não era descritivo o suficiente. Muitas palavras que usas hoje nas tuas aulas de A1 e B1 foram cunhadas por Lutero:
- Feuertaufe (batismo de fogo)
- Lückenbüßer (solução provisória / quebra-galho)
- Herzenskündiger (aquele que conhece os corações)
- Machtwort (palavra de autoridade / pôr fim à discussão)
Ele também nos deu expressões que ainda usamos hoje, como "Perlen vor die Säue werfen" (dar pérolas aos porcos) e "ein Herz und eine Seele" (ser uma só alma e um só coração).
5. Porque é que isto ainda importa hoje
Quando estudas a Central de Gramática, estás, na prática, a aprender o "alemão de Lutero", aperfeiçoado ao longo de 500 anos. O motivo pelo qual podes usar o mesmo manual em Berlim, Viena e Zurique é porque Lutero criou a "ponte" linguística que ligou o norte e o sul.
Sem Lutero, talvez tivesses de aprender três línguas diferentes só para viajar pela Europa Central!
A tua língua materna tem uma figura à maneira de Lutero — alguém que unificou a forma como as pessoas falam? Ou achas interessante que um texto religioso tenha moldado uma língua moderna e secular? Entra e junta-te ao debate histórico abaixo!
Comentários
Por favor, faça login para deixar um comentário.